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Qual é a sua moto?

Qual é a sua moto?

A viagem de moto mais incrível que você lerá hoje

Imagem retirada de http://media.motonline.com.br/2017/02/viagem-de-moto-15.jpg Imagem retirada de http://media.motonline.com.br/2017/02/viagem-de-moto-15.jpg

Independente do que você estiver fazendo, pare agora. Dedique dez minutos do seu dia para conhecer a viagem de moto mais incrível (e maluca) que você lerá hoje. O protagonista desta história é Eduardo Avila, 25 anos, de Campo Grande/MS, e no enredo também estão 19 países das Américas, uma Yamaha Midnight Star 950, o encontro com quem viria a ser sua namorada, o Moto Encontro del Fin del Mundo, alguns milhares de quilômetros e quase três anos na estrada rodando. Detalhe: Eduardo aprendera a pilotar uma moto poucos meses antes.

Seguindo os planos iniciais, era para ser apenas uma viagem de Campo Grande até Ushuaia (na Patagônia Argentina), que levaria menos de três meses. Porém, a paixão de Eduardo pelo motociclismo e pela aventura acabara de despertar, como se há muito ela estivesse ali, adormecida, esperando por acampamentos e um motor twin que a despertasse. “Acampei na estrada e em vários quarteis de bombeiros, casas abandonadas, containers velhos, portos, vilarejos abandonados, postos de gasolina, no deserto e em bases militares… resultou que me empolguei muito com a viagem”, escreveu Eduardo ao Motonline. Não conseguiu mais parar, o vírus já tinha entrado no sangue.

Viagem de moto por 19 países – como tudo começou
“Havia recém-aprendido a pilotar e comprado minha motocicleta, uma Yamaha Midnight Star 950. Saí de casa sem nenhuma experiência em moto, tanto que nos cinco primeiros metros tive meu primeiro acidente: a moto estava tão carregada e pesada que não consegui fazer a curva ao sair da garagem e fui reto, batendo no carro que estava em frente. Fiz um curso básico de mecânico e parti com um pouco mais de 1.000 dólares no bolso, baseando minha viagem em CouchSurfing (comunidade online de viajantes) e de acampar.

A lei era não pagar para dormir”, contou Eduardo.
Esta foi a terceira viagem de moto de nosso amigo. A primeira aconteceu num – looongo – bate e volta, de Campo Grande a Bonito (MG), totalizando 906 km. Com um amigo, saiu às 5:00 e sequer tinham levado casaco. Na volta, Eduardo comentou a viagem com motociclistas da cidade e eles ficaram impressionados com a distância do bate e volta, o que o motivou a fazer a segunda aventura: pilotar mais de 1.600 km em menos de 24 horas.

Para o feito, Eduardo, formado em administração e baterista, escolheu uma Honda CG. “Dia 8 de fevereiro de 2014 saí às 11:00 e fiz um percurso por MS, GO, MG e SP, retornando a Campo Grande no dia seguinte, às 7:20. Consegui fazer 1.808 km em 20 horas e 20 minutos. Fiquei muito orgulhoso e então tracei planos para ir até Ushuaia e voltar, que foi minha terceira viagem a qual acabou saindo dos planos. O que era para durar entre 60 e 75 dias, levou 33 meses.”

Resumo da Viagem
Antes de esmiuçar os principais tópicos desta grande aventura, vamos passar um panorama geral da viagem. Rodando o tempo todo sozinho (exceto em duas ocasiões em que esteve acompanhado pelos amigos Javier Gregorini e depois por um casal de argentinos, por três semanas e um mês – respectivamente -, e do período com sua namorada (da qual falaremos mais adiante), Eduardo cruzou 19 países: Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Estados Unidos, Belize, Venezuela, Bolívia e Paraguai. Saiu de casa no dia 21 de março de 2014 e retornou em 21 de dezembro de 2016.

Em viagem, o aventureiro manteve uma velocidade média constante na casa dos 75 – 80 km/h, para reduzir custos com combustível e manutenção da moto, como pastilhas de freio e pneus. Por falar nos “sapatos”, na Argentina Eduardo não encontrou um pneu de 16 polegadas para sua roda traseira, então teve de improvisar com um pneu velho que encontrou na casa de um amigo. Ele foi tirado de um carro russo e estava desde 1999 jogado no quintal, pegando sol, chuva e neve… “estava totalmente ressecado, mas era a única opção e pilotei 800 km com este pneu (de Calafate até Rio Grande) e até peguei 150 km de rípio com ele”.

Mais de 30 meses na estrada – principais momentos
Pedimos a Eduardo que nos contasse quais foram os principais acontecimentos da viagem, e o porquê. O primeiro momento que ele lembrou acontecera na primeira semana de junho de 2014. “Após conseguir chegar em Ushuaia, de volta para o norte pela Ruta 40, fiquei retido em uma cidade chamada Gobernador Gregores. A quantidade de gelo e a nevasca era absurda. No dia seguinte, enfrentei temperaturas baixíssimas e 200 km de estrada totalmente congelada. Esse foi um momento de muito estresse no qual eu me perguntava o que estou fazendo aqui sem roupas de frio adequadas? Depois desse momento, diante de qualquer dificuldade que eu tinha, lembrava dessa ocasião: enfrentei -16ºC sem roupa de frio por 200 km na Argentina e consegui vencer. Não vou desistir por qualquer pequeno problema”.

O segundo momento destacado pelo motociclista refere-se a sua passagem pelos Estados Unidos. “Um país onde desde o momento que entrei até o momento que saí fui acompanhado por más experiências. Desde ter meu visto negado ao Canadá, duas vezes ter sido enganado por um mecânico, ter pedidos de ajuda negados milhares de vezes, ser tratado com indiferença, ficar sem nenhum dinheiro… Foram momentos de extrema tensão e preocupação. Tive várias crises de stress, onde eu acordava e não lembrava onde estava”. Por fim, Eduardo ressaltou a experiência de rodar acompanhado. “Viajar com minha namorada foi uma decisão muito difícil para ambos. Para mim, que agora era responsável por uma vida a mais, e para ela, que teve que deixar tudo (trabalho, casa, família e amigos) para seguir viagem comigo. Os primeiros dias de estrada foram difíceis e pensamos que não íamos conseguir, porque somos de culturas diferentes e vez ou outra entrávamos em conflito. Felizmente, já faz um ano que estamos juntos e tudo está bem”.

Como se virar sem grana
Quem já fez alguma viagem de motocicleta sabe que é impossível rodar por quase 20 países, longe de casa por mais de 30 meses, gastando apenas 1.000 dólares (montante inicial que Eduardo levou nos alforjes de sua Midnight Star 950). Para resolver o problema, nosso ‘moto viajeiro’ (como Eduardo se define), um bom brasileiro, se virava como podia. “Em vários países, como Peru, Equador, Colômbia, Costa Rica e México, a Yamaha fornecia pequeno aporte para a viagem, como peças e serviços”. Além disto, Eduardo expunha suas motos em grandes encontros e eventos de moto, onde pedia óleo, filtro de óleo, filtro de ar, pneu, pastilhas de freios e algum serviço.

Em alguns lugares, como no Peru, onde ficou sem grana pela primeira vez e acabou levando quase um ano para sair do país, ele fez pequenos trabalhos e vendeu artesanato. Em outra ocasião, membros de motoclubes de Bogotá (Colômbia) realizaram uma festa beneficente para arrecadar fundos, ajudando o amigo brasileiro em sua expedição (com o dinheiro ele pode cruzar o Panamá). Nos Estados Unidos, trabalhou de pedreiro em uma obra e também como auxiliar em uma plantação de uvas. Em moto-encontros, vendia adesivos e moedas de outros países. “Mais de 50% da nossa renda veio de doação, enquanto os outros 50% foram fruto de nossas vendas e de trabalho”.

Parado por traficantes, separatistas e militares
É realmente muito difícil resumir, sem perder detalhes ricos, uma história tão excepcional como esta. Mas tem um acontecimento que não poderíamos deixar de fora. Imagine você cruzando um novo país, onde não conhece sequer uma pessoa ou cidade, até que é barrado por militares… por separatistas e por traficantes!

“Depois de passar por toda a América Central, cruzei o México, onde fui parado três vezes na estrada. Uma por narcotraficantes, outra por militares e a última por zapatistas (movimento indígena de separação). Por sorte em nenhuma das situações tive problemas, sendo que em todas elas me deixaram ir sem qualquer transtorno. Os traficantes me pararam numa pequena blitz no meio do deserto. Armados, mandaram eu descer da moto e começaram a revirar minhas coisas que estavam nela, até que encontraram todo o meu dinheiro. Vinte e dois dólares e 150 pesos (que valiam mais nove dólares). Eu estava tremendo de medo dos caras. Em certo momento, me perguntaram qual era a melhor cerveja do México e eu respondi ‘Victoria’. Então, depois de uma conversa entre eles e episódios de muita tensão me liberaram. Quando subi na moto e a liguei, colocaram a mão no meu peito e me deram mais 50 pesos (três dólares): ‘Para você provar a Pacífico, esta é a melhor cerveja que temos aqui’. Segui viagem, aliviado”.

No meio do caminho, uma namorada
Como se não bastasse a lista de acontecimentos inusitados (incluindo as barreiras e o pneu russo na roda de trás da moto), durante sua passagem pelo México Eduardo que conheceu uma garota chamada Karen, que viria a ser sua namorada (e futura esposa, ele garante). O primeiro contato se deu através de Javier Gregorini, amigo do sul-mato-grossense que o acompanhou por três semanas, do Panamá até a fronteira com México, com uma Honda XR 250 Tornado. “Em determinado momento nos separamos e marcamos de nos encontrar na cidade de Morelia, onde nos hospedaríamos na casa de uma amiga dele. Eu cheguei no dia combinado, mas ele não, pois seu pneu havia furado, o que acabou atrasando sua viagem em um dia.

Então eu e a Karen fizemos uma boa amizade. “Fiquei 15 dias na sua casa e cogitamos a hipótese dela viajar comigo até o Brasil. Fui para Guadalajara porque tive a ideia de fabricar um trailer – já que viajar com mulher é complicado” (vocês leram isso? O cara embarca numa viagem louca, roda quase 20 países, sobrevive de artesanato, conhece uma garota… e, como se já não tivesse bom, constrói um trailer!). “Fiquei dois meses lá trabalhando nisso. Voltei no fim do ano com a Karen. Saí uma vez mais para ir a uns eventos de moto em Guadalajara e depois em fevereiro começamos nossa viagem juntos com destino ao sul. Assim foi, ela desistiu do trabalho e deixou sua casa lá para me acompanhar”, contou o aventureiro viajante.

Amizades que mudaram minha vida
A cada quilômetro, novas experiências e amizades. Em todos os lugares, Eduardo conheceu pessoas que contribuíram, cada uma a seu modo e intensidade, para mudar algo nele, em seu modo de ver e sentir o mundo. “Fiz amizades que me mudaram a vida e também aprendi que não importa o tamanho do motor de sua motocicleta. Na Colômbia, por exemplo, o país que mais gostei de conhecer, sempre me juntava com clubes de baixa cilindrada, onde os caras me diziam ‘olha só essa maleta enferrujada e amassada, deve ter tantas histórias! Nunca lave essa moto porque ela traz o pó de todos os países da América!’. Era incrível estar com eles. Quando olho para o passado sinto muito orgulho de ter decidido viajar e de ter tido a sorte de conhecer essas pessoas”, contou Eduardo.

“Se pudesse resumir tudo que aprendi nestas novas relações, a palavra seria ‘humildade’. Conheci um rapaz, por exemplo, que vive a 40 minutos de Bogotá e tem uma loja de acessórios de moto. Ele fechou sua loja e me foi buscar na entrada da cidade, perdendo toda a tarde nisso, e no dia seguinte não foi trabalhar para passar o dia inteiro na cidade me levando para passear. Ele não tem dinheiro, vive num armazém perto da sua loja. Falei para ele: Você deixou de ir trabalhar um dia e meio apenas para passar o tempo com a gente? Poucos fariam isso” Então ele respondeu: Vou ter 365 dias no ano para trabalhar, mas a oportunidade de conhecer alguém como você, que viajou por tantos países e viveu tantas experiências, é única. Esse dinheiro que deixei de ganhar não se compara com esses momentos que passamos. Uma resposta incrível. Já nos EUA as pessoas costumam pensam o contrario, que tempo é dinheiro, então não curti muito lá. E também foi quando eu estava lá que faleceu um dos meus melhores amigos, Christian Purikchaki, num acidente de moto. Isso me abalou muito, então fiz questão de ir visitá-lo no cemitério e passei uma semana com sua família lá.

Conselhos para inspirar viajantes
“Não criar desculpas”, disse o categórico Eduardo. “Não tenho dinheiro, não tenho moto, ninguém para ir comigo, não podemos usar estas desculpas. “Com dinheiro você faz uma viagem de lazer, mas sem dinheiro você vive uma aventura; então decida o que quer fazer. Com grandes motos, há grandes custos e grandes problemas; enquanto que pequenas motos trazem pequenos custos e pequenos problemas. Então o importante não é a cilindrada da moto, mas sim saber se a mecânica está em dia. Por último, se você tem um(a) marido/esposa que te acompanhe, perfeito! Se não, perfeito também! Quem faz uma viagem destas vai conhecer muitos(as) homens/mulheres no caminho e viver muitas paixões! Caso você queira um companheiro de rota, como outro amigo solteiro por exemplo, aconselho que rodem juntos somente um tempo máximo de três meses, afinal, imagine você um ano rodando com seu amigo, até que um conhece uma menina e quer ficar uma semana a mais com ela, enquanto o outro não vai querer esperar; um vai querer ficar na praia uma semana, e o outro não, etc. Não ter alguém para viajar não é desculpa, o melhor que existe é viajar sozinho, pois assim estamos dispostos a viver experiências únicas e a conhecer nossos próprios limites. As principais decisões da vida tomamos sozinhos”.

Volta ao mundo em uma moto elétrica
Eduardo Avila nasceu em Campo Grande e é formado em Administração. Para pagar a graduação, dava aulas de bateria. Nunca trabalhou formalmente e assim que conseguiu seu diploma… saiu para viajar de moto. De volta ao endereço fixo no Mato Grosso do Sul, ele já sonha com a próxima aventura: dar a volta ao mundo em uma moto elétrica. “Tenho a energia e a determinação para isso, tenho bons projetos, apenas preciso de patrocinadores. Já estou buscando pessoas que apoiem esta ideia”, finaliza. Hoje o motociclista comercializa adeisvos, pusleiras e outros itens com lembranças de suas viajens, visando arrecadar fundos para as próximas.

fonte: Moto Online